João Vieira

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Primatas

O seguinte texto é um excerto do livro O Filósofo e o Lobo de Mark Rowlands sobre o que define os primatas:

É a tendência para ver o mundo como uma colecção de recursos; coisas que podem ser usadas para os seus objectivos. O primata aplica este princípio a outros primatas tanto quanto, ou mais ainda, o aplica ao resto do mundo natural. O primata é a tendência para ter não amigos mas aliados. O primata não vê os seus colegas primatas, observa-os. E enquanto o faz, aguarda a opurtunidade de se aproveitar deles. Para o primata estar vivo é estar à espera de atacar. O primata é a tendência para basear as relações com os outros num único princípio invariável e implacável: o que podes fazer por mim e quanto é que isso me vai custar? Essa percepção dos outros primatas acaba por se virar contra o próprio, contagiando e comunicando a visão que o primata tem de si próprio. Consequentemente, ele considera a felicidade como algo que pode ser medido, pesado, quantificado e calculado. E encara o amor da mesma forma. O primata é a tendência para pensar que as coisas mais importantes da vida se resumem a uma análise de custo-benefício. — Mark Rowlands

O preço da liberdade

Sobre as virtudes da liberdade tem-se dito muito e parolado muito mais. É, portanto, díficil compreender que, até entre os seus crentes mais fervorosos, haja tão grande ignorância acerca da sua essência e cor.

E não há melhor pretexto para invocar a sagrada palavra que a recente aprovação em parlamento do casamento entre pessoas do mesmo sexo, ignóbil profanação da instituição do matrimónio, que tanta confusão tem feito lá para os lados do laranjal e entre beatos e beatas, dos de missa e comunhão, desses que passam quase tanto tempo a pedir a deus que castigue os hereges como a lhe rogar que cumpra nesta vida algumas das bem-aventuranças que prometeu para a outra.

Tudo isto, sendo verdade, não significa nada. Para que signifique algo terei de defender o casamento homossexual, tarefa que, por príncipio, não deveria empreender, pois não sou homossexual e consequentemente é assunto que não me diz respeito. A liberdade, no entanto, é de todos e é em defesa dela que proponho a tese de que o casamento entre pessoas do mesmo sexo deve ser legalizado e reconhecido por todas as instituições do Estado, tal como a lei agora aprovada prevê. (mais…)

Ensaio sobre a mentira

A mentira comanda a vida. É combustível tão essencial à sobrevivência da alma como o pão à subsistência do corpo. Levanta uma manhã após outra o escriturário, cansado da monotonia da vida, com a promessa de uma reforma tranquila naquela casa, junto à praia, que nunca terá, rodeado dos netos que a morte não deixará que veja crescer. Limita desde tenra idade cada Homem ao que a sociedade necessita que ele seja. E faz-o com tamanha elegância, com o afinco mecânico que a um evento faz inexoravelmente suceder outro sem espaço, sequer, para uma semi-fusa de improviso, para um toque de originalidade na partitura da vida.

Eis o problema.