João Vieira

mail: vieira@yubo.be

Nós por cá

Desengane-se quem, como eu, acredita que a estupidez política na Madeira é colorida apenas de laranja e encontra na figura irrisória do seu presidente o expoente máximo. Duarte Gouveia, candidato socialista ao Funchal, acredita, pelos vistos, que a prioridade maior para o município, numa altura de crise, é erguer uma estátua a Cristiano Ronaldo. Não sei se me repugna mais a vacuidade de ideias ou monumento em si. Ou se talvez a imagem, que me invade a alma, das personagens grotescas, ignorantes até da sua ignorância, em modos desajeitados, vomitando a estupidez de que são feitas, em redor do dito monumento tirando fotografias para, como refere o aspirante a autarca, despejar pelas redes sociais na Internet. Afinal, como já dizia Voltaire, o senso comum não é assim tão comum.

Rock dos Piratas

Não há muito tempo atrás tive a opurtunidade de ir ao cinema, já não me recordo se por intento ou se por força das circunstâncias, ver o The Boat That Rocked, que não sendo uma obra-prima do cinema não pecou, pelo menos, em pretender sê-lo. Algum tempo depois de ver o filme, quando as notícias sobre o encerramento do The Pirate Bay perscrutavam em cada recanto da Internet, vieram até mim as imagens do barco que o regime orweliano tentou afundar.

Também se afundam, não sem luta que lhes faça justiça ao nome, estes piratas, nossos contemporâneos, mas a ideia sobrevive.  E fica a esperança que um dia, talvez, se volte a ouvir Rock na Internet.

Encolher de Ombros

Segue-se um excerto deste trecho do Livro do Desassossego de Fernando Pessoa, nos momentos em que era Bernardo Soares, que me deu vontade de partilhar com quem o queira ler.

Damos comummente às nossas ideias do desconhecido a cor das nossas noções do conhecido: se chamamos à morte um sono é porque parece um sono por fora; se chamamos à morte uma nova vida é porque parece uma coisa diferente da vida. Com pequenos mal-entendidos com a realidade construímos as crenças e as esperanças, e vivemos das côdeas a que chamamos bolos, como as crianças pobres que brincam a ser felizes.

Mas assim é toda a vida; assim, pelo menos, é aquele sistema de vida particular a que no geral se chama civilização. A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objecto torna-se realmente outro, porque o tornámos outro. Manufacturamos realidades. (…) – Fernando Pessoa