João Vieira

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Ensaio sobre a mentira

A mentira comanda a vida. É combustível tão essencial à sobrevivência da alma como o pão à subsistência do corpo. Levanta uma manhã após outra o escriturário, cansado da monotonia da vida, com a promessa de uma reforma tranquila naquela casa, junto à praia, que nunca terá, rodeado dos netos que a morte não deixará que veja crescer. Limita desde tenra idade cada Homem ao que a sociedade necessita que ele seja. E faz-o com tamanha elegância, com o afinco mecânico que a um evento faz inexoravelmente suceder outro sem espaço, sequer, para uma semi-fusa de improviso, para um toque de originalidade na partitura da vida.

Eis o problema.

Para Crianças

As crianças nunca mentem, mas, às vezes, contam verdades que nunca aconteceram. Os adultos, que normalmente nunca percebem nada, não são capazes de destinguir a primeira, que eles próprios cometem com uma destreza que só a prática permite, da última, que é tão nobre quanto os  sonhos dos poetas.

Os poetas são artistas e os artistas são crianças grandes. Os adultos gostam de tornar as coisas simples em coisas complicadas para poderem pensar muito sobre todos os detalhes. Fazem-no com tão pertinaz afinco que é díficil para as crianças resistir muito tempo a esta triste forma de vida. É por isso que existem tão poucos artistas.

Um artista é uma pessoa que faz o que gosta porque gosta: é um criador de coisas belas. Não se preocupa em ser rico ou ter uma casa grande, na verdade, com nada se preocupa. Ao contrário do que muita gente pensa, muitas pessoas que aparecem na televisão não são artistas. São apenas actores ou músicos ou jornalistas, que trabalham muito para terem dinheiro para comprar roupas e carros e outras coisas chatas.

É claro que os actores, os músicos e mesmo os jornalistas podem ser artistas. Na verdade qualquer pessoa pode ser um artista. Há muitos cientistas que são artistas apesar de exprimirem a sua arte numa forma menos convencional, mas, não ser convencional é o que faz grandes os artistas.