João Vieira

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O preço da liberdade

Sobre as virtudes da liberdade tem-se dito muito e parolado muito mais. É, portanto, díficil compreender que, até entre os seus crentes mais fervorosos, haja tão grande ignorância acerca da sua essência e cor.

E não há melhor pretexto para invocar a sagrada palavra que a recente aprovação em parlamento do casamento entre pessoas do mesmo sexo, ignóbil profanação da instituição do matrimónio, que tanta confusão tem feito lá para os lados do laranjal e entre beatos e beatas, dos de missa e comunhão, desses que passam quase tanto tempo a pedir a deus que castigue os hereges como a lhe rogar que cumpra nesta vida algumas das bem-aventuranças que prometeu para a outra.

Tudo isto, sendo verdade, não significa nada. Para que signifique algo terei de defender o casamento homossexual, tarefa que, por príncipio, não deveria empreender, pois não sou homossexual e consequentemente é assunto que não me diz respeito. A liberdade, no entanto, é de todos e é em defesa dela que proponho a tese de que o casamento entre pessoas do mesmo sexo deve ser legalizado e reconhecido por todas as instituições do Estado, tal como a lei agora aprovada prevê.

Ser livre não é apenas libertar-se das correntes que nos amarram, é viver de forma que respeite e faça crescer a liberdade dos outros. — Nelson Mandela

O direito à liberdade de que cada um de nós faz diariamente uso, implica, em si mesmo, a responsabilidade de reconhecer e defender a liberdade dos outros, nomeadamente, a liberdade de perseguir a felicidade da forma que entenderem e de constituir família com quem e do modo quiserem.

Eu quero liberdade para a completa expressão da minha personalidade. — Mahatma Gandhi

É amplamente aceite pela comunidade científica que a homossexualidade não é uma doença nem um imbalanço psiquiátrico para o qual se possa aspirar tratamento. É antes, parte da identidade de alguém. Como tal deve ser respeitada e aceite, compreendida e tratada por igual. Não se trata de concordar ou discordar, trata-se de aceitar a liberdade dos outros em agir da forma que entenderem.

A liberdade de todos é essencial para a minha liberdade. — Mikhail Bakunin

O meu último argumento é um conceito conhecido em Filosofia por véu da ignorância. Foi introduzido por John Rawls em 1971 no seu livro A Theory of Justice e pode ser enunciado da seguinte forma: Imagine-se numa posição em que está perfeitamente consciente, tal como se encontra quando lê estas linhas que escrevinho, mas ainda não nasceu e não sabe nada sobre si ou como vai ser quando nascer. Poderá nascer numa família rica ou no meio da pobreza, poderá nascer saudável ou deficiente, e neste contexto, homossexual ou heterossexual. É-lhe dada a possibilidade de tomar decisões acerca do mundo onde vai nascer. Nestas circunstâncias terá de tomar decisões ponderadas. Se criar um mundo onde a justiça social beneficia apenas os ricos e despreza os mais pobres, e tiver o azar de nascer pobre a sua vida será miserável. Suponha que cria um mundo onde os homossexuais são perseguidos e estigmatizados e acaba por nascer com essa orientação sexual…

Cabe-me agora, antes de dar o caso por encerrado, refutar o famoso argumento: como haveremos de consentir uma ligação que é contra os princípios humanos? Para que a pergunta faça, sequer, sentido vamos definir, neste contexto, ligação como relação de cariz sexual entre duas pessoas do mesmo sexo e príncipios como instintos naturais e não como valores morais. Assim torna-se simples constatar, pelos argumentos acima referidos, que o nosso consentimento não é necessário para que a ligação se dê, já que em nada interfere com a nossa vida e, reconhecendo a liberdade de todos os individuos de se ligarem da forma que entenderem torna-se intuitivo afirmar que lá por eu achar a sopa de agrião nojenta, não pretendo proibir os que a queiram comer de o fazer.

Nota i: Uma leitora contactou-me por email denunciando o meu plano maléfico de apoiar o casamento homossexual para reduzir a concorrência e assim poder ter a Scarlett Johansson só para mim. Ahaha…, cara leitora, demasiado tarde, o plano já está em andamento!

Nota ii: Ao leitor que me contactou acerca da adopção sobre casais homossexuais, devo dizer que não tenho opinião formada acerca do assunto, mas que sou tendencialmente contra pois considero que não seria positivo para o desenvolvimento da criança. Mas se tiver bons argumentos a favor envie-os, posso sempre mudar de opinião.

Nota iii: Após conversa no Messenger sobre este post, eis um uma bd que vem mesmo a calhar.