João Vieira

mail: vieira@yubo.be

Primatas

O seguinte texto é um excerto do livro O Filósofo e o Lobo de Mark Rowlands sobre o que define os primatas:

É a tendência para ver o mundo como uma colecção de recursos; coisas que podem ser usadas para os seus objectivos. O primata aplica este princípio a outros primatas tanto quanto, ou mais ainda, o aplica ao resto do mundo natural. O primata é a tendência para ter não amigos mas aliados. O primata não vê os seus colegas primatas, observa-os. E enquanto o faz, aguarda a opurtunidade de se aproveitar deles. Para o primata estar vivo é estar à espera de atacar. O primata é a tendência para basear as relações com os outros num único princípio invariável e implacável: o que podes fazer por mim e quanto é que isso me vai custar? Essa percepção dos outros primatas acaba por se virar contra o próprio, contagiando e comunicando a visão que o primata tem de si próprio. Consequentemente, ele considera a felicidade como algo que pode ser medido, pesado, quantificado e calculado. E encara o amor da mesma forma. O primata é a tendência para pensar que as coisas mais importantes da vida se resumem a uma análise de custo-benefício. — Mark Rowlands

Encolher de Ombros

Segue-se um excerto deste trecho do Livro do Desassossego de Fernando Pessoa, nos momentos em que era Bernardo Soares, que me deu vontade de partilhar com quem o queira ler.

Damos comummente às nossas ideias do desconhecido a cor das nossas noções do conhecido: se chamamos à morte um sono é porque parece um sono por fora; se chamamos à morte uma nova vida é porque parece uma coisa diferente da vida. Com pequenos mal-entendidos com a realidade construímos as crenças e as esperanças, e vivemos das côdeas a que chamamos bolos, como as crianças pobres que brincam a ser felizes.

Mas assim é toda a vida; assim, pelo menos, é aquele sistema de vida particular a que no geral se chama civilização. A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objecto torna-se realmente outro, porque o tornámos outro. Manufacturamos realidades. (…) – Fernando Pessoa